Tuesday, October 25, 2005

Anjos?

Foi um anjo dos meus dias de menina. Era merceeiro do bairro e amante da mulher-a-dias lá de casa, posição que o deixava a par de todas as minhas aventuras e aflições e me merecia uma estima invencível. A loja era provavelmente infecta mas eu nunca soube disso. Faziam-se contas com o lápis tirado detrás da orelha e cheirava a madeira de pipa de guardar vinho. Sempre que foi preciso ninguém saber de mim, fugida de um castigo ou de um aperto grande demais, foi lá que estive. O Sr. Mário embrulhava-me os rebuçados de mentol e chocolate em cartuxos de papel e chamava-me um diminutivo de Sofia, nome complicado para se encher de afecto. Foi há muito tempo que ele nos deixou e o lugar se rendeu ao seu esqueleto de garagem. Quando os meus dias se rompem e o coração volta ao princípio, o Sr. Mário e o lugar estão lá, ainda lá. É assim que eu digo que o Sr. Mário foi um anjo dos dias em que fui menina.