Friday, October 28, 2005

O passado a Deus pertence

A memória é um movimento às vezes daninho às vezes amável e sempre transformador. Não há quem saiba o que fará às coisas depois das coisas. Se do futuro se diz que não nos pertence, o passado com certeza que também não. O que há de mim até ontem é uma ilustração, uma que a cada dia em lotaria se foi pregando melhor à pele.

Na Casa dos Mortos

O Senhor L. é primoroso no seu ofício e é assim que prepara demorado um corpo para o funeral. Quando acaba está tudo certo, como se não fosse morte aquilo que ele tem.

Outono

Não devemos entristecer no Outono. Há castanhas quentes nas mãos, ginásios com actividades indoor, botas em gortex, cinema no escuro mesmo a horas do dia, camisolas de lã, esplanadas abrigadas, casacos oleados, picadeiros cobertos, piscinas amenas, golas altas, um mundo todo para nos metermos lá dentro.

Thursday, October 27, 2005

A Cavaleira

Senta-se no cavalo como se fossem os dois só um. Ao apear traz no seu um cheiro de animal e de couro. Um cheiro único agudo que não se confunde uma vida inteira.

Doces à cabeça ao cimo dos passos

À quarta-feira são as raivas, à quinta o bolo de Ançã e à sexta as queijadas de Pereira. Três mulheres que me parecem sempre a mesma, de roupa negra e lenço à cabeça, os doces em cestos grandes de verga escura. Não lhes imagino vida mais nenhuma para além das viagens errantes pela cidade. São tão iguais àquilo que fazem que não hão-de ser mais nada. Podem ir em passos demorados até ao cair da tarde para desaparecer e emergir pela manhã à porta de todos os serviços públicos, talvez em mais do que um ao mesmo tempo. Se calhar não é bem isto, mas invejo a imponderabilidade que lhes dei.

Outono

O vendaval dura há um dia e uma noite. Trouxe nuvens e sombra, cinzento para o horizonte do dia. Hoje o Outono é uma ameaça à benevolência do céu.

Wednesday, October 26, 2005

Forgot your password?

Esquecer coisas é metê-las num circulo de meia dúzia de neurónios fundos e dóceis. É assim que um amor passa a sonho raro de noites incautas.

Outono

Hoje, com o vento que se atira contra a minha janela e ao Sol, todas as folhas caíram alegremente.

Tuesday, October 25, 2005

Anjos?

Foi um anjo dos meus dias de menina. Era merceeiro do bairro e amante da mulher-a-dias lá de casa, posição que o deixava a par de todas as minhas aventuras e aflições e me merecia uma estima invencível. A loja era provavelmente infecta mas eu nunca soube disso. Faziam-se contas com o lápis tirado detrás da orelha e cheirava a madeira de pipa de guardar vinho. Sempre que foi preciso ninguém saber de mim, fugida de um castigo ou de um aperto grande demais, foi lá que estive. O Sr. Mário embrulhava-me os rebuçados de mentol e chocolate em cartuxos de papel e chamava-me um diminutivo de Sofia, nome complicado para se encher de afecto. Foi há muito tempo que ele nos deixou e o lugar se rendeu ao seu esqueleto de garagem. Quando os meus dias se rompem e o coração volta ao princípio, o Sr. Mário e o lugar estão lá, ainda lá. É assim que eu digo que o Sr. Mário foi um anjo dos dias em que fui menina.

Thursday, October 20, 2005

Make-up outra vez

Às vezes voltamos de manhã, lavados e esculpidos em carne nova, se o dia que mostra a janela é absolutamente outro.

Thursday, October 06, 2005

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Boas Notícias

Se nos imaginarmos suficientemente pequenos todo o resto nos pode ser exterior.

DENNETT

Tranquilizante mas insuficiente se o mal entrou até aos ossos.

Monday, October 03, 2005

Boas notícias

As decisões são voluntárias? São coisas que nos acontecem? De alguns pontos de vista fugazes, parecem antes de tudo o mais manobras voluntárias das nossas vidas, instantes em que exercemos o nosso agir na sua plenitude. Mas também se pode considerar que essas mesmas decisões estão estranhamente fora do nosso controlo. Temos de esperar para ver como vamos decidir alguma coisa, e quando de facto decidimos, a nossa decisão borbulha at´é à consciência de um local que desconhecemos. Não testemunhamos como foi feita; testemunhamos a sua chegada. Isto pode levar à ideia estranha de que o Quartel-General não é onde estamos enquanto seres conscientes capazes de introspecção; estamos algures num local mais profundo dentro de nós, e que nos é inacessível.

DENNETT, Elbow Room


Quando penso que te amo já te amei: como o jornal do dia anterior, atrasada e pacificada.