Thursday, August 04, 2005

Mãos pretas

Podemos procurar o mar, ouviu-lhe. Que não, fez-se de fazer fazendo-se pai, que o céu se tinha posto de nuvens cónicas, escuras, permanecidas, que os clarões, relâmpagos e estrondos viriam, e vieram antes que as palavras coincidissem com o mencionar cogitado.
Um só mergulho, que a vagação está boa e a tempestade não se nos afogueia a feição assim no passar de cinco minutos pois é de vir vindo, ouviu-lhe a insistência supliciada. Que não, fez-se de fazer fazendo-se continuadamente pai,
que era perigoso e que os mortos não se abraçam nem se deixam guiar, nunca mais.
E pensara, para sempre que o pôr dentro da terra coberto de terra de um filho é onde e só o Senhor de Todas as Coisas inexiste.
Ao pensar do embora, no sobretempo, chegou o trovão ao perto. Com o assusto e o desadivinhar, largou a mão do filho. Quando se deu de ser de perceber, viu-o perdido. Fulminado. Adveio o bafo coado da carne queimada e quando lhe tocou, uma textura ressequida, quase em crosta e aresta, e não havia mais olhar ao arredor.
Por milagre nunca de antes ouvido, as mãos tingiram-se-lhe de preto e assim ficaram, o que ele entendia como prova flagrante da sua culpa e se agudizava quando teimavam que o pranto era necessário à sua abalada consciência. Além das frases, e das orações que flagelam, as mãos pretas eram a única notação do amor que lhe restava. Ali, assacando-se, dissoluto, se dizia: Amo-te com o que tenho, meu filho querido.

4 Comments:

Blogger cbs said...

O Amor dos pais vulnera-os.
Em singularidades espaçotemporais torna-se agudo e fulminante.

Sinto isso

9:31 AM  
Anonymous miguel said...

Afonso!? Por aqui? Agora que te chorei no Bombyx descubro-te feliz a maquilhar os dias. Com esta é que me fintaste...

1:14 AM  
Anonymous Diotima said...

Afinal, escondido por entre os blogues mais bonitos e as mulheres mais interessantes. Que bom, três vezes que bom!

7:07 PM  
Blogger blimunda said...

lindo. lindo de morrer. ( ainda bem que estás)

7:47 PM  

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