Sunday, July 31, 2005

O Domingo ponta a ponta

Quando entristeço demais ao Domingo há uma ponta de mim que vigia a outra ponta. Aos pés encosta-se um coração danado e as mãos esmeram-se no bolo de chocolate.

Um bocadinho - India Song

...Pausa.

V.-CÔNSUL: É completamente inútil irmos mais longe, você e eu. (Riso breve, terrível.) Não temos nada a dizer um ao outro. Somos iguais.

Pausa...

Saturday, July 30, 2005

Do tempo

O tempo que cura a amargura demora mais do que o outro, o tempo banal que não pesa nem salva.

Antigamente era assim

O Imperador obediente à voz do anjo traçou as muralhas de Constantinopla. Uma cidade nasceu das mãos dum homem atento às palavras do céu.

A estrada

É o melhor dos blogs dos melhores dos bloggers. Seja a estrada um blog ou não.

A noite

A noite em claro faz-se de peças a mais no peito.

Friday, July 29, 2005

As férias dos outros

A minha mulher a dias é de ouro.

Wednesday, July 27, 2005

Palavras light

Doente, ficou tão magra naquele Verão que todas as palavras foram imponderáveis. Depois da convalescença ele sentiu a falta daquela conversa própria dos lugares altos.

O passeio do caminheiro

Regressou do dia com os pés sujos de chão. Fulgores da terra virgem que cede, generosa.

Thursday, July 21, 2005

Do tempo que eu gosto

Gosto de ver o tempo que está nas mãos hábeis do velho sapateiro da minha rua. Tivesse nas mãos outro tempo e nada seria assim.

Da noite

Das noites inquietas fica o desalinho nos músculos e um engenho triste a mais no peito.

Tuesday, July 19, 2005

Coisas que se dizem sempre

Sou pindérica e nunca me arrependi.

Sunday, July 17, 2005

Coisas que se dizem no primeiro encontro, pelo sim pelo não

Há anos que me exercito na invisibilidade. Posso atravessar-te e ser corrente de ar, maré, seixo do rio, coisas que vão.

Friday, July 15, 2005

Quase nada

Uma frase por dia. Quase nada separa agora da minha vida a minha escrita .

Thursday, July 14, 2005

O que se diz para dizer o fim do amor


Os teus ossos não são iguais aos meus.

Tuesday, July 12, 2005

Verão a saldos

Uma mulher pode demorar o Julho todo a descobrir o tom de azul que lhe vai bem com a pele e chegados os saldos estar esgotada a cor ou o tamanho. Isto é verdade para quase tudo o que uma mulher pode descobrir no Verão.

Monday, July 11, 2005

Pequena I. do sobrolho em diante

A Prednisolona alargou-lhe a espessura das sobrancelhas. Carregou-se-lhe o sobrolho e o rosto tomou carácter. Na menina de sete anos há um excesso de temperamento acima dos olhos. Abaixo dessa linha os dentes continuam a cair e as mãos a chegar sujas à mesa.

O dia

Queria hoje um dia luminoso. Como se não fosse Julho e a candura viesse assim por gentileza.

Sunday, July 10, 2005

Na autópsia

O corpo deve preservar a morte de cada um e se for possível contá-la uma vez.

Saturday, July 09, 2005

Pontos de vista para o dia

A esta hora a cor sobre a serra da minha janela é luminosa. A luz gasta-se de baixo para cima e neste terceiro andar o mesmo dia acabou.

Thursday, July 07, 2005

Londres

Para as notícias que chegaram de Londres não há sentimentos possíveis. São notícias e é Londres e uma mão impossível que aperta a traqueia.

Wednesday, July 06, 2005

Na morgue

O Senhor C. compõe o colarinho à volta do sulco do enforcado. Ninguém mais se lembrará e o fim foi antes da ferida.

O Verão

Há manifestações do Verão que detesto: os insectos, sobretudo os rastejantes, e as larvas de todos. O tamanho do caroço das nêsperas. Preocupa-me a salmonella e as toxinas dos bivalves. Os cosméticos de promessa. Aflige-me muito esta alegria infundada que me anima do nascer ao pôr do Sol.

Tuesday, July 05, 2005

Branco eterno

Ela inclina-se em folhas brancas e não acontece nada. As palavras começam nos ossos e o avesso das coisas nunca foi a salvação.

Monday, July 04, 2005

Regras de ouro

Se é chegada a meia-noite e não há um post à mão, traz contigo um não post que te escreva o dia.

Sunday, July 03, 2005

O Domingo

Os três cães de três raças e três tamanhos esticam-se lentos no cimento ao sol. Não há gatos por perto e eu a passar não sou quase nada. As crianças suam dentro dos chapéus e vermelhas dos guinchos combatem vilões ou piratas, numa ilha talvez. A laranjeira faz uma curva onde as costas se metem e me ficam os olhos para a serra ao longe. A minha inexistência descansa-me ao Domingo no pátio do vizinho.

Saturday, July 02, 2005

Pequena Bailarina

A bailarina vai inquieta como convém às bailarinas de sete anos. Mãos e pés cadentes no fim do corpo. No princípio o rosto e antes muito antes aquele sobressalto que a fez dançar.

Das Neves por amor

Maria das Neves morreu quando eu tinha quatro anos. Foi ruiva e morreu branca, tão branca como o nome das Neves. O nome não era o dela, mas disso só se soube depois, já ela tão branca. Ao nome de nascimento renunciou por um amor castigado pela vaidade da família. Álvaro era o nome dele. Fez-se entretanto gente e senhor na universidade, mas ela ficou das Neves até morrer assim. Das Neves por amor. Dele teve sete filhos, morto um restariam seis. A última, M. T., foi depois minha mãe. Da minha avó branca não guardo recordações e se as tenho não sei se são a sério ou impressões da fotografia. Não chegou até mim o gene das sardas e do cabelo de fogo. Mas daquele amor que a fez branca eu sei tudo. Aperta-me o peito uma coisa assim.

Friday, July 01, 2005

Começo assim

Receio ter esquecido noutro lugar o absolutamente necessário: à flor da pele, todas as palavras.