Monday, October 30, 2006

Uma hora


A questão é esta: o que fazer ao tempo a mais se não se estendem os caminhos? Não sei se me alegro se não no último Domingo do mês de Outubro.

Tuesday, October 10, 2006

Celebração

Apetece-me a terra tapada de folhas, a marmelada no parapeito, a camisola de lã, o caminho com a água da noite, as castanhas embrulhadas no jornal, o orvalho no pára-brisas, os passos dele em redor se o Outono mo desse.

Saturday, November 19, 2005

À Janela

Na minha janela, a serra ardida debaixo das nuvens cinzentas de chuva está ainda mais impossível.

Thursday, November 10, 2005

A Manhã

Ele dorme pela manhã e levanta o estore para saber sempre que o dia principiou: um sono mais generoso.

Tuesday, November 01, 2005

Folga

Hoje esteve para chover todo o dia e não choveu. Com a chuva hão-de ter ido outras coisas iminentes sem me ter acontecido nenhuma. Foi feriado, um dia benévolo.

Friday, October 28, 2005

O passado a Deus pertence

A memória é um movimento às vezes daninho às vezes amável e sempre transformador. Não há quem saiba o que fará às coisas depois das coisas. Se do futuro se diz que não nos pertence, o passado com certeza que também não. O que há de mim até ontem é uma ilustração, uma que a cada dia em lotaria se foi pregando melhor à pele.

Na Casa dos Mortos

O Senhor L. é primoroso no seu ofício e é assim que prepara demorado um corpo para o funeral. Quando acaba está tudo certo, como se não fosse morte aquilo que ele tem.

Outono

Não devemos entristecer no Outono. Há castanhas quentes nas mãos, ginásios com actividades indoor, botas em gortex, cinema no escuro mesmo a horas do dia, camisolas de lã, esplanadas abrigadas, casacos oleados, picadeiros cobertos, piscinas amenas, golas altas, um mundo todo para nos metermos lá dentro.

Thursday, October 27, 2005

A Cavaleira

Senta-se no cavalo como se fossem os dois só um. Ao apear traz no seu um cheiro de animal e de couro. Um cheiro único agudo que não se confunde uma vida inteira.

Doces à cabeça ao cimo dos passos

À quarta-feira são as raivas, à quinta o bolo de Ançã e à sexta as queijadas de Pereira. Três mulheres que me parecem sempre a mesma, de roupa negra e lenço à cabeça, os doces em cestos grandes de verga escura. Não lhes imagino vida mais nenhuma para além das viagens errantes pela cidade. São tão iguais àquilo que fazem que não hão-de ser mais nada. Podem ir em passos demorados até ao cair da tarde para desaparecer e emergir pela manhã à porta de todos os serviços públicos, talvez em mais do que um ao mesmo tempo. Se calhar não é bem isto, mas invejo a imponderabilidade que lhes dei.

Outono

O vendaval dura há um dia e uma noite. Trouxe nuvens e sombra, cinzento para o horizonte do dia. Hoje o Outono é uma ameaça à benevolência do céu.